O Doutorado

Ao mesmo tempo em que começávamos a montar o curso na UFLA, ficou claro que, por ainda estar nos seus primeiros semestres, não era necessário ter tantos professores em tempo integral. Muitos dos docentes aprovados nos concursos daquela época ainda estavam concluindo o doutorado, ou sequer tinham começado. Eu terminei o mestrado já como professor da UFLA e passei a pensar nos próximos passos. Os professores que já estavam em Lavras se reuniram e organizaram uma escala para que todos pudessem fazer o doutorado, algo indispensável para a progressão na carreira acadêmica. Com apenas graduação ou mestrado, o salário era muito baixo; só com o doutorado ele se tornava minimamente razoável — ainda longe de ser alto.

Nesse ponto, eu tive sorte porque o Monserrat, que era meu colega de disciplina, já tinha doutorado, então ele não disputou comigo uma vaga nessa escala. Além disso, como as disciplinas eram bem introdutórias, qualquer professor podia atuar como substituto. Assim, ficou decidido que eu poderia sair para o doutorado depois de dois anos como professor na UFLA (em meados de 1999). Quando terminei o mestrado, comecei então a olhar alternativas para o doutorado. O que eu realmente queria era fazer um doutorado no exterior, aproveitando para levar a família para viver fora por algum tempo.

Escolhi umas seis universidades internacionais de ponta que tinham pesquisa na área de segurança ou criptografia e iniciei o processo de inscrição em todas elas. Fazer esse processo a partir do Brasil era complicado, porque muitas exigiam formulários em papel e pagamento de taxas em dólares. Muitas vezes tive de mandar vale postal porque era a única forma de pagamento a que eu tinha acesso e as universidades aceitavam. Por sorte, naquela época, as instruções para as inscrições já estavam disponíveis na internet e também era possível obter ajuda por e-mail. O maior problema era que eu tinha de conseguir, ao mesmo tempo, a aceitação na universidade e uma bolsa de estudos. A Universidade de Lavras não tinha disponibilidade de bolsas de doutorado para professores de computação naquele ano, então eu teria de conseguir financiamento de alguma entidade externa.

Conseguir bolsa nos Estados Unidos, como estrangeiro, era praticamente impossível. O único apoio que a UFLA poderia me dar naquele momento era uma licença com vencimentos, mas o salário era muito baixo para sobreviver nos Estados Unidos. Além disso, as universidades exigiam o pagamento de mensalidades. Sem bolsa, simplesmente não havia como. Passei então a participar dos editais tanto da CAPES quanto do CNPq.

Acabou virando o clássico problema do ovo e da galinha: a universidade queria a garantia de que eu tinha financiamento para me dar uma vaga, e os órgãos de fomento queriam a garantia de que eu já tinha sido aceito por uma universidade para conceder a bolsa. Mesmo assim, fiz as inscrições e resolvi ver no que dava. Cheguei às etapas finais do edital do CNPq, faltando apenas a aprovação formal de uma universidade, mas ela não veio. Aos poucos, começaram a chegar as cartas de reprovação de todas as universidades para as quais eu havia me candidatado.

Como o sonho de fazer o doutorado no exterior foi por água abaixo, começamos a pensar em alternativas. A Gisele não queria ficar em Lavras: não havia muitas possibilidades de carreira para ela por lá. Decidimos então que nós dois nos inscreveríamos no programa de pós-graduação da Unicamp. No meu caso, a entrada era praticamente garantida: como ex-aluno, eu já tinha conversado com meu orientador e bastava enviar a documentação. Para ela, o processo envolvia mais incertezas, mas sua formação era sólida e acreditávamos que daria certo.

E deu. Nós dois fomos aceitos: ela no mestrado e eu no doutorado. A próxima aventura, então, seria deixar Lavras e seguir para Campinas.

Olhando em retrospecto para esse processo de tentativa de doutorado no exterior, acho que cometi alguns erros que tornaram tudo mais difícil, tanto nas candidaturas às universidades quanto na busca por bolsa. Talvez o maior deles tenha sido um excesso de autoconfiança. Eu tinha me formado em universidades de ponta no Brasil, tanto na graduação quanto no mestrado, e tinha passado em primeiro lugar em um concurso para professor de universidade federal. Achei que seria óbvio que algum programa de doutorado iria me querer. A vida, claro, não funciona assim. Um pouco mais de humildade talvez tivesse ajudado.

Hoje fica claro que eu estava cercado de pessoas muito qualificadas que poderiam ter me ajudado: meu orientador, colegas professores (muitos já com doutorado) e até minha mãe, que é professora doutora. Ainda assim, resolvi fazer tudo sozinho. Enfim, é assim que a gente aprende.