A rede da universidade

Com o tempo, foram chegando outros professores na UFLA, incluindo aqueles contratados para as disciplinas de redes de computadores. Com isso, a universidade passou a ter gente para começar a cuidar da infraestrutura de informática que se queria modernizar. Na época, existia apenas uma conexão com a rede estadual de pesquisa, concentrada no prédio da reitoria. Quem quisesse acessar a internet precisava usar um modem e discar para um dos ramais de uma espécie de BBS montada na reitoria. Também era possível, pelo menos para os professores, ligar de fora da universidade ou de casa. Mesmo para os padrões da época, aquela rede já podia ser considerada bastante ultrapassada.

Aos poucos, fomos descobrindo quais eram os planos que tinham sido feitos antes da nossa chegada. Um dos colegas encontrou a documentação de um projeto elaborado em parceria com a IBM para montar uma rede de fibra óptica em todo o campus, com infraestrutura de última geração fornecida pela própria IBM. Pelo que nos contaram, a empresa teria prometido inclusive cuidar da aprovação do financiamento junto ao ministério. Ou seja, a universidade só precisaria assinar o convênio, e a IBM cuidaria de todo o resto, incluindo o lobby.

Mas a vida real não funciona assim. A IBM começou a dar sinais de que tinha sérias dificuldades para conseguir a aprovação do financiamento que havia prometido. Isso significava que a universidade não teria recursos para construir aquela rede “dos sonhos”. O curioso é que a IBM estava tão confiante que havia iniciado os trabalhos antes mesmo da aprovação. Quando fomos olhar de perto, descobrimos que praticamente toda a infraestrutura de fibra óptica já tinha sido passada pelo campus. O que faltava era pouco, e em geral em locais de baixa relevância. Por ser uma universidade rural, o campus incluía plantações, criações de animais e áreas semelhantes que haviam sido contempladas no projeto original, mas onde a fibra ainda não tinha chegado. Concluímos rapidamente que não fazia sentido levar fibra até o curral, por exemplo, e percebemos que, para fins acadêmicos, a universidade já tinha praticamente toda a infraestrutura física de que precisava.

O primeiro passo, portanto, estava dado: a parte física da rede já existia. Em conversas com a reitoria, porém, não estava claro se aquela fibra podia ser usada livremente ou se era propriedade exclusiva da IBM dentro do projeto original. Um dos novos professores, o Luiz Henrique, tomou a frente dessa questão, negociou com a reitoria e conseguiu autorização para usar a infraestrutura existente para montar a rede do campus. A ideia era levantar algum recurso para comprar os switches e interligar os demais prédios (começando pelo nosso) até a reitoria, que já possuía o acesso à internet. Aos poucos, os equipamentos foram sendo adquiridos e os prédios conectados um a um. Dentro de cada prédio, a infraestrutura interna também precisava ser feita, o que acontecia à medida que surgia verba. No final, conseguimos uma rede conectando todo o campus, a um custo muito mais baixo do que o projeto megalomaníaco originalmente proposto pela IBM.

Como mantivemos algum contato com a IBM, ficamos sabendo de um edital que eles lançaram para apoio à pesquisa. Era necessário submeter um projeto, e os grupos selecionados receberiam equipamentos da IBM para uso em pesquisa. Como, na época, eu estava trabalhando com sistemas de pagamento eletrônico e tinha acabado de publicar um artigo sobre pay-per-use, submeti um projeto nessa linha e fui contemplado. Recebi, no âmbito desse projeto, uma estação de trabalho RS/6000 da IBM, que rodava o UNIX da empresa, o AIX. Aquela máquina passou a ser meu computador do dia-a-dia, já que os equipamentos disponíveis na universidade eram um pouco antigos. Era uma boa estação de trabalho e me permitiu aprender um sobre o AIX e desenvolver algumas coisinhas em Java.

Chegamos a ouvir rumores de que os responsáveis pelo projeto da UFLA dentro da IBM teriam sido demitidos, mas nunca soube se isso era verdade. Enquanto isso, as aulas continuavam, os semestres iam passando, mas isso fica para o próximo capítulo.